3) Os clubes fundadores da SuperLiga Europeia seguiram o dinheiro. Não os podemos culpar por isso.
O grande efeito secundário de uma pandemia, como o COVID-19, é a perda de receita económica. De pequenos comerciantes a empresas multinacionais, todos perderam dinheiro. O mercado do futebol não é indiferente ao Mundo que o rodeia.
Esta sim foi a principal razão por detrás da criação da SuperLiga Europeia. A isto já voltaremos.
A SuperLiga Europeia, criada no dia 18 de abril de 2021, é uma competição composta por 15 clubes fundadores e mais 5 clubes convidados. Os 15 fundam a Liga e dela nunca saem, independentemente do seu desempenho na mesma. Os 5 clubes convidados são escolhidos pelos 15 com base em sabe-se lá o quê.
Disputar-se-iam 18 jogos, divididos em dois grupos de 10 equipas com os primeiros 4 classificados de cada grupo a seguirem para uma ronda a eliminar a duas mãos. A final seria só um jogo.
Mas a criação começou logo mal. Dos 15 clubes fundadores afinal só 12 apareceram (Arsenal, Tottenham, Manchester City, Manchester United, Chelsea, Liverpool, Barcelona, Real Madrid, Atlético Madrid, AC Milan, Inter e Juventus) porque o Bayern de Munique, PSG e Borussia Dortmund recusaram logo. Estes 12 clubes representam apenas 3 países inscritos na UEFA.
Já os 5 clubes convidados, nem uma carta receberam.
Edmund Burke, em 1790, escrevia sobre a necessidade da prudência para se construir uma qualquer instituição, contrapondo que a sua destruição não demoraria menos que segundos.
Mas não seria necessário ir tão longe até ao texto 'Reflections on The Revolution in France' para entender a incompetência deste projecto.
Perceber que a única representatividade da SuperLiga Europeia estava nos 3 países mais poderosos do futebol e basear a criação desta liga nesse mesmo conceito só revela perfeita e completa ignorância.
Ocorre também o levantamento da questão do mérito. Para todos os efeitos, a SuperLiga Europeia teria membros que de lá nunca saíam, criando-se uma liga fechada e não aberta. 15 clubes estariam sempre lá. Não necessitavam de ganhar um campeonato, uma taça ou um playoff. Estavam lá e nada mais. Aqui me querem, aqui me têm. Os outros 5 clubes convidados teriam de tirar uma senha e esperar a sua vez.
As competições europeias têm acessos diversos. A SuperLiga não.
A falta de representatividade de países não-Big Five não choca porque o que esta competição seguiu foi, única e exclusivamente, o dinheiro.
A parte monetária é a única que conta.
O vencedor da Liga dos Campeões recebe um valor acumulado próximo de 100 milhões de euros. 100 milhões de euros recebe o último classificado da Premier League. Um clube para ter esta fonte de receita, de 100 milhões de euros da UEFA, teria de vencer a Liga dos Campeões todos os anos.
O bolo de prémios da receita, gerada pela UEFA, é dividido pelos clubes que participam na Liga dos Campeões. Este bolo ronda os 2.7 mil milhões de euros para cerca de mais de 30 equipas. Ora, na SuperLiga, os 15 clubes fundadores iram dividir um bolo de 3.5 mil milhões de euros só por avançarem com o projecto (com o banco JP Morgan a suportar este custo). E isto sem contar com outros prémios com base no mérito e nos direitos de transmissão que seriam anuais. Iriam receber só por serem membros mais que o prémio acumulado de vencerem a Liga dos Campeões.
Os clubes fundadores criaram a SuperLiga por quererem uma maior fatia das receitas da UEFA. Se são eles a assumir as principais despesas porque não controlar uma maior fatia do bolo?
A SuperLiga Europeia lá começou a perder estofo. Todos os clubes fundadores, excepto Real Madrid e Barcelona, retiraram-se desta Liga por pressão de adeptos e dos media.
Os jogos entre os grandes clubes são momentos imperdíveis. São-no porque são tão raros como o dia de Natal. Se tivéssemos Natal todos os dias, não se perdia a mística?
Mas que se engane quem ache que o conceito vai desaparecer. Esta ideia existe desde o século passado e estará para ficar.
Não acredito nesta ideia do futebol de rua ter vencido os malditos dos capitalistas. O futebol europeu é capitalista há muitos anos. Isto não foi a luta do coitadinho do adepto do Chelsea contra o maldito do Real Madrid. Porque o Chelsea é tão mais centrado no negócio do futebol que o Real Madrid.
Esta ideia do pequeno contra o grande é irrisória. Não acredito que o adepto de futebol prefira ver um Cova da Piedade-Vizela em detrimento de um Real Madrid-Barcelona.
Concluo com uma análise às palavras de Florentino Pérez, presidente do Real Madrid e da SuperLiga Europeia. Lá disse que os jovens não estavam interessados em ver os jogos de futebol e a chorar por não ter dinheiro para comprar Mbappé e Haaland.
Florentino é o maior cancro do futebol europeu. Foi o homem que vendeu o melhor trinco do Mundo, Claude Makélélé, para comprar um jogador medíocre como o David Beckham, puramente, pelo seu valor comercial. De lembrar que Beckham só ficou conhecido e reconhecido por se ter casado com uma das Spice Girls, curiosamente a menos talentosa.
Já quanto à atenção que os jovens prestam aos jogos de futebol, isso não é nada de novo. Mas não é só no futebol. A sociedade não vive em dias, meses e anos mas sim em segundos. Esta análise é insuficiente e revela a capacidade de gestão de Florentino.
No fundo, a SuperLiga estará para ficar. Mas dentro destes moldes nem um cego a aprovaria.
2) José Mourinho é o melhor despedido de sempre.
José Mourinho foi despedido, esta segunda-feira, pelos maus resultados que tinha vindo a acumular desde que chegou ao Tottenham Hotspur em Novembro de 2019.
Já foram quase 90 milhões de euros, em indemnização, que José Mourinho recebeu dos clubes que deixaram de querer os seus serviços. Para além de ser um vencedor nato, Mourinho ganha agora a reputação do melhor despedido de sempre. Só do Tottenham recebeu quase 20 milhões de euros.
Quando a maré não é favorável à sua permanência num qualquer clube, Mourinho saca da bóia de salvação no valor de mais de dez milhões de euros. É assim desde que foi despedido pelo Chelsea em 2007.
De facto, Mourinho traz consigo uma maré de sucesso e recordes incríveis mas também traz publicidade, confronto e arrogância. Tudo o que fez dele o melhor treinador de sempre faz, agora, de si a piada do futebol. Não concordo mas torna difícil defender o Special One.
Se há algo a seu favor é a falta de tempo. Mourinho esteve apenas 17 meses em Londres. Já em Manchester não conseguiu chegar a 3 anos completos. A reputação de Mourinho é tanta que o tempo em que lhe permitem fazer o seu trabalho é cada vez mais curto. Esperam-se milagres em tempo recorde.
Acho que Mourinho é tratado de maneira diferente de todos os outros treinadores de topo. Acho que se dá menos tempo e menos tolerância a um dos treinadores mais titulados de sempre. Talvez por isso Mourinho seja capaz de arrecadar tantos milhões quando o despedem.
Tenho pena que este seja mais um fim para José Mourinho. Antigamente, fazia os mais medíocres parecer o Ronaldo Nazário de 2002. Porém, os clubes que tem escolhido não têm uma visão de longo prazo.
Por muito que haja um Real Madrid, um Inter de Moratti e um F.C. Porto de Pinto da Costa há sempre um Manchester United muito mal gerido desde Alex Ferguson e um Tottenham de um fanático endividado por causa da construção de um estádio.
Umas 'vacaciones' num Bayern de Munique e PSG seria o ideal para a reputação de Mourinho.
Mas o 'Zé' sempre gostou de percorrer o caminho mais difícil.
1) Tratamos monstros como tratamos crianças.
Na semana passada, decidi ver os filmes Alien (1979) e Godzilla vs. Kong (2021). Ambos têm uma premissa simples de se basearem em criaturas monstruosas.
Há, no entanto, um enorme contraste.
Em Alien, uma tripulação de astronautas, a caminho do Planeta Terra após uma missão, é redireccionada para um planeta onde se julga existir vida extraterrestre. A missão é encetada por três dos sete tripulantes (Dallas, Kane e Lambert) e um deles (Kane) descobre um local onde vários ovos de aliens se encontram.
Com a sua curiosidade, aproxima-se para verificar estas criaturas e é atacado por uma, ficando esta presa à sua cabeça. Os outros dois tripulantes acudem Kane e levam-no de volta para a nave espacial, pondo fim ao rastreio do planeta desconhecido.
A criatura, eventualmente, perde vida e retira-se da cabeça de Kane. Em celebração, os tripulantes comemoram com um jantar sumptuoso mas Kane acaba por se sentir mal. De repente uma criatura sai da sua barriga, perfurando e matando-o.
O 'filho' de Kane, o alien, cresce e acaba por matar, um a um, todos os tripulantes da nave espacial excepto a capitã Ripley, que acaba por conseguir escapar.
A história acaba por ser simples. Um alien à procura de matar humanos. Um vilão altamente repugnante e imbatível a ir contra as forças do bem.
Saltando para Godzilla vs. Kong e a primeira cena mostra King Kong, no seu santuário em Skull Island, a olhar para uma criança sem a comer. Pelos vistos, a pequena conseguia ter uma relação afectiva com o bicho. O facto de o animal não ter comido, imediatamente, a pequena criança fez com que o filme fosse pouco respeitado.
De resto, pouco ou mais há a escrever.
Um filme fez do monstro, vilão. O outro humanizou-o.

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