Foi no dia 3 de Agosto de 2020, uma segunda-feira por volta das 17:00, no Caixa Futebol Campus, que se colocou ponto final a um dos maiores dramas de sempre da história do futebol português.
O regresso do enfant terrible ao Benfica.
Das escadas que davam acesso à estufa, local onde Jorge Jesus seria apresentado oficialmente como treinador do Sport Lisboa e Benfica, desceram o novo treinador encarnado, Rui Costa, Luís Filipe Vieira e outros figurantes.
A caminhada até à entrada da estufa parecia algo semelhante a um qualquer corredor da morte onde o prisioneiro se familiariza com o seu destino. Foi assim que observei Vieira e Rui Costa. O andar de ambos não se comparava ao andar de 2009, ano em que Jesus foi apresentado como treinador do Benfica pela primeira vez.
Nessa altura, o Benfica tinha ganho três campeonatos nos últimos 20 anos, o F.C. Porto tinha sido pentacampeão uma vez e o Sporting era visto como uma referência nacional. Pelo meio, o próprio Boavista fora campeão uma vez. Nessa altura, Jesus tinha perdido cerca de 1 milhão de euros por causa da falência do BPP e uma ida para o Benfica não só lhe dava uma maior liquidez financeira como prestígio internacional.
Em 2009, Vieira e Rui Costa pareciam convictos de que este seria o homem certo para o Benfica. A arrogância não tinha fim. Por boa razão, porém: Jesus chegou e tornou-se no treinador com mais títulos conquistados na história do clube da Luz.
Onze anos depois, a arrogância não existia e Jesus não tinha que provar nada a ninguém. As negociações contratuais ilustraram esta vertente. Jorge Jesus queria apenas um ano de contrato mas Vieira queria Jesus no Benfica até 2024. Lá se entenderam e Jesus assinou por dois anos.
O presidente e o director desportivo pareciam agora duas vítimas de sequestro. Andavam com os olhos postos no chão e a repetir as mesmas banalidades que repetiram em 2009. Os discursos e a linguagem corporal de ambos mostravam agora arrependimento, saudade e medo. Os dois trataram Jesus como o único possível salvador de um Benfica rodeado de miséria desde 2015. Uma miséria que ambos orquestraram, levando o clube a perder campeonatos para um F.C. Porto debilitado financeiramente.
Jesus conquistou muito no Benfica, mas também deixou muito na mesa. As finais perdidas da Liga Europa doem até hoje. Os confrontos com um F.C. Porto demolidor não eram o chá das avós. No entanto, com outro treinador não acredito que melhor fosse feito. Este foi o problema de Vieira, Rui Costa e de alguns benfiquistas.
Não se aperceberam das limitações da sua loucura. Achavam que conseguiam fazer mais com menos. Viam os miúdos a sair e ficavam com pena. Sobre isto, porém, já me debrucei.
Edmund Burke, um dos grandes pais do Conservadorismo, disse o seguinte a respeito da Revolução Francesa: 'Começaste mal, porque começaste por desprezar tudo aquilo que te pertencia'. Burke, no mesmo ensaio ('Reflections on The Revolution of France') argumenta que sem instituições e sem ordem um qualquer déspota autoritário teria terreno livre para plantar o seu ideal de Nação em França.
O Benfica pertence a Jorge Jesus e Jorge Jesus pertence ao Benfica. Jesus é agora o nosso déspota e chega como quer e com plenos poderes para fazer o que bem entender. Jesus tem um cheque em branco e não tem ninguém capaz de o contrariar. Poderá vir a ser um modelo de sucesso, visto que Jesus não cometerá os mesmos erros de Rui Costa e Vieira. Com tanta incompetência exibida por ambos, se calhar, o ideal é ter alguém que saiba decidir e decidir bem.
O actual presidente do Benfica precisa de ganhar as suas eleições este ano e Jesus foi, talvez, o seu maior trunfo.
Os benfiquistas não querem uma repetição desta época, com ou sem Jesus. A palavra mediocridade nunca devia ter sido associada ao Sport Lisboa e Benfica, mas esta época foi.
Vieira tem de apagar esta nuvem recente de insucesso e o regresso de Jesus poderá tratar disso de forma rápida e eficaz.
Porém, todos nós temos um fim e acredito que Vieira está muito próximo do seu.
Luís Filipe Vieira, não pergunte por quem os sinos dobram; eles dobram por si.

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