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O Rei vai nu



O slogan do filme 'Die Hard' lia o seguinte: '12 terroristas. 1 polícia.'.

No caso do Benfica seria mais correcto escrever: '11 terroristas. 1 polícia.'.

Bruno Lage, apesar das declarações contraditórias de Luís Filipe Vieira no final do jogo contra o Marítimo (venceu o S.L.B. por 2-0), já não é o treinador do Benfica. A 'suposta' crise de maus resultados terá sido a gota de água.

Apesar da fragilidade do treinador nesta fase mais conturbada, os problemas do Benfica não são recentes.

Lage foi apenas a agulha no palheiro. Um mero terrorista prestes a ser executado pelo grande John McClane português, Luís Filipe Vieira.

Comecemos, então, com o Sport Lisboa e Jorge Jesus.

Jorge Jesus foi, sem dúvida, o treinador com mais sucesso nos últimos 30 anos do Sport Lisboa e Benfica.

Num período de três anos, Jesus chega aos quartos final da Liga dos Campeões e a duas finais da Liga Europa. Aliado ao brilharete europeu estavam campeonatos, taças e supertaças.

A gestão no período de Jesus foi sensata, competente e cirúrgica. Mas tal como o 'Antes de Cristo' há sempre um 'Depois de Cristo'.

O Sport Lisboa e Benfica tornou-se rapidamente no Sport Lisboa e JJ. A influência de Jesus trouxe campeonatos sem que este fosse o treinador do Benfica. (Agradece, Rui Vitória).

Luís Filipe Vieira foi egoísta e não gostava que Jesus fosse o único a receber os louros. Foi egoísta porque quis ser ele o principal responsável pelos sucessos do Benfica. Vieira montou o clube, criou o Seixal do zero e trouxe o Benfica da irrelevância para as grandes montras da Europa. Qual a razão para não ser ele o aclamado?

A estratégia ficou assim montada por Vieira. Mandar Jesus para Alvalade e trazer para a Luz um treinador manejável e capaz de cumprir a função de apostar na formação sempre que possível.

O raciocínio de Vieira fazia sentido. Durante anos o Benfica não usou e abusou de talentos como Bernardo Silva, André Gomes, João Cancelo, Rony Lopes e outros. O Seixal era o bebé do presidente do Benfica e o veículo que ditaria o esquecimento do trabalho de Jorge Jesus.

O retorno financeiro teria de ser equacionado e forçado no novo treinador. Para quê vender Bernardo Silva por 15 se se podia vender por 80?

Estava tudo para correr bem: o Seixal criava prodígios e o Benfica ganhava campeonatos.

Cedo se constatou que não havia um Bernardo Silva todos os anos. Certo é que João Félix quebrou o recorde de preço por um jogador em Portugal, mas por cada João Félix há 40 Nuno Tavares.

O início da dependência do Seixal significava o abandono de um plano de recrutamento onde Jesus era dono e senhor e dava ao Benfica jogadores como Ramires, Javi García, Saviola, Garay, Siqueira, Fábio Coentrão, Witsel, Lima, Jonas e outros.

Passámos da surpresa da Europa para a piada da Europa. Com Jesus dominávamos e ganhávamos ao campeão italiano. Agora, estamos em pé de igualdade com o 7º classificado da Liga Francesa.

No pós-Jesus não houve investimentos na Bélgica, Holanda, Brasil ou Argentina. O supermercado do Benfica era nacional, (não) muito bom e para permanecer na Margem Sul.

Rui Vitória lá ganhava campeonatos sem saber ler nem escrever mas cedo se viu que a equipa e o treinador não jogavam um com o outro. Lá veio Lage, talvez o melhor treinador no pós-Jesus, com a experiência de treinar metade do plantel da equipa A do Benfica e não havia mal capaz de parar o terceiro anel.

Cedo se percebeu que Lage seria o próximo salvador da pátria. Mas a equipa continuava a ser o problema.

Lage antecipou esta aglomeração de insucessos e apercebeu-se da impossibilidade de injectar qualidade no Samaris e daí a três meses ter o Toni Kroos grego a actuar em Portugal.

A equipa encontrou um equilíbrio com Florentino e João Félix no onze. O foco não era posto na defesa pois esta estava muito bem escondida pela forma como Lage preparava a equipa. Rúben Dias tinha-se estabelecido como um dos melhores defesas centrais da Liga NOS mas a defesa, tal como o clube, precisava de aparecer no 'Querido, Mudei a Casa'.

Ferro foi um desastre desde que chegou à Luz. Nunca entendeu os posicionamentos básicos de um central. Achava que era o próximo Pepe e procurava meter sempre o pé na primeira oportunidade que tinha. É o central com mais técnica no Benfica mas isso é o mesmo que dizer que é o homem mais simpático na prisão. Grimaldo é uma cratera desde 2016 e André Almeida é igual a si mesmo: mediano e sem grande estilo.

O recorde negativo do Benfica nos últimos jogos é o seguinte: 2 vitórias em 12 jogos. Sofrendo um total de 13 golos nos últimos nove jogos para o campeonato português. Um clube como o Benfica não pode apresentar um onze com uma defesa em total estado de calamidade.

Bruno Lage fica algemado perante a inépcia e redonda mediocridade da equipa. Segundo Vieira, Lage disse que saía não por não ter qualidade mas porque as circunstâncias não o permitiam fazer um trabalho de sucesso. Eu compreendo Lage e espero que tenha imenso sucesso no futuro. Nunca, por um segundo, achei que Bruno Lage fizesse parte dos problemas do Benfica.

Lage fazia o melhor que podia com as ferramentas que Vieira lhe dava.

Soares de Oliveira, o CEO do Benfica, teve a audácia de referir que os 60 milhões investidos este ano em jogadores era suficiente e que o clube não tem intenções de vender ninguém num futuro próximo. As paredes começaram a encurralar Bruno Lage.

Neste processo há um denominador comum: Luís Filipe Vieira, o polícia. A sua visão incessante está em assegurar o maior retorno financeiro através do Seixal. O importante é termos jogadores da casa a jogar na equipa A independentemente da sua qualidade. Jorge Jesus viu o seu fim no Benfica por causa de Vieira. Rui Vitória e Bruno Lage não teriam um desfecho diferente.

Apesar de todos os elogios que Vieira merece é tempo de reflectir sobre o modelo desportivo da equipa A.

A ganância tomou conta de Vieira e fez de si um sujeito imbatível e capaz de tudo. O Seixal tornou-se no martelo de Thor. Vieira quis apagar o histórico de todos os que passaram pelo clube. Quis eliminar os seus camaradas como Estaline fazia com os seus opositores e amigos. Vieira, tal como muitos ditadores, queria ser o único responsável pelo sucesso do seu clube.

O presidente do Benfica quis ser Ícaro mas esqueceu-se do sol. Quis ser Napoleão mas esqueceu-se do Duque de Wellington.

Quis ser Rei sem se vestir.

Agora, o Rei vai nu.



Comments

  1. Concordo em gênero e em número, a sombra de JJ é obra e o ego de Luis Filipe Vieira é enorme. Muito bem. Parabéns.

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