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Sou Marega? Não, sou Hulk



O caso Moussa Marega tem suscitado um bando de reações, vindas de todos os espectros da sociedade. O Presidente da República comentou (estranho!), o Primeiro-Ministro comentou, o Ministro dos Negócios Estrangeiros comentou, até Wuhan, o epicentro do coronavírus, decidiu pronunciar-se sobre o assunto. O comentário acéfalo e massivo ao caso Marega deve-se a um facto simples: vivemos numa era onde tudo o que trata de racismo, igualdade de género, discriminação ou transexualidade tem de estar na ordem dos trabalhos da nossa sociedade.

Para os que estiveram dentro de uma gruta no domingo passado, o caso Marega reporta a um incidente no Estádio do Vitória Sport Club durante a partida que opôs o anfitrião vimaranense ao Futebol Clube do Porto, onde o jogador Moussa Marega decidiu sair do terreno de jogo alegando abuso verbal racista por parte dos adeptos da casa. Tudo por volta do minuto 70.

Ora, existem aqui várias nuances neste tema. Começo com a minha própria pessoa. No domingo, decidi fazer um breve comentário sobre o caso, no Twitter, em resposta a um observador de futebol. Escusado será dizer que fui chamado dos mais diversos nomes. Aqui fica o comentário para interpretação e análise:


O que se passou verdadeiramente em Guimarães foi uma minoria presente que decidiu replicar sons de macaco, atirar cadeiras, assobiar e criticar Moussa Marega. Marega já tinha representado o Vitória durante uma época, o que pode explicar a hostilidade com que os adeptos da casa receberam o maliano. Luís Figo quando se mudou do Barcelona para o Real Madrid até foi recebido em Camp Nou, na Catalunha, com uma cara de porco e sempre que tentava marcar um canto tinha de esperar, dado a quantidade de objectos atirados na sua direção. 

No entanto, o meu comentário no Twitter prende-se com o facto de ter sentido existir falta de profissionalismo do jogador e também falta de civismo por parte dos poucos adeptos que proferiram os insultos. Marega tem todo o direito de discordar com o que lhe chamam nos diversos estádios de futebol, tal como qualquer outro jogador. Também tem o direito de pensar, como qualquer pessoa racional, que o racismo é mau e não devia pertencer numa sociedade aberta e democrática como a nossa.

(É curioso, porém, ver todos os cordeiros, sejam eles jornalistas ou políticos vir a público defender a luta contra o racismo: DUH! Uma pessoa normal não apoia o racismo ou qualquer tipo de discriminação. Escusam de vir com a moralidade banal e cimeira dizer isso na esfera pública).

A grande vantagem ou desvantagem de qualquer desporto é a crítica antes, durante e depois do jogo. O futebol e outros desportos não beneficiariam de tantos milhões e milhões de euros se não existissem canais e programas dedicados à análise, discussão e debate dos diversos eventos desportivos. Portanto, a indústria desportiva beneficia muito da crítica.

Como existe um pendor tão crítico no desporto, muitos dos seus adeptos também sentem o dever e o direito de ter uma opinião. Essas opiniões, como exemplificado em cima, podem ser transmitidas através das redes sociais, ou o mais comum, serem transmitidas no 'local de trabalho' dos jogadores de futebol: os estádios.

Acredito que se um adepto compra um bilhete tem o direito de dizer aquilo que lhe apetecer. Esta é a premissa da liberdade de expressão, ao qual nunca renunciarei. No caso em concreto, ainda não se conseguiu provar que cânticos foram estes. O FCP afirma que foram 'macaco', 'chimpanzé' e até 'preto'. Porém, quem esteve presente no estádio D. Afonso Henriques como Luís Cirilo Gonçalves e o próprio Presidente do Vitória, Miguel Pinto Lisboa, admitiram não ter ouvido cânticos deste género.

O que importa aqui salientar é que existindo cânticos racistas ou não, tudo não se tratam de palavras. A diferença entre chamarem a uma pessoa 'macaco' ou 'idiota' é a mesma. São ambos insultos e ambos fazem parte do mecanismo verbal usado para enfurecer e criticar, levando a uma reação da pessoa vítima do insulto. Marega é macaco?! Não. Um macaco é um animal selvagem, algo que Marega não é. Marega é um ser-humano racional como todos nós. Ele é que se sentiu ofendido. Ele é que cedeu. Ele é que abandonou o jogo.

Como se ensina a qualquer criança, e pelos vistos também se terá de ensinar a Marega, visto ser um jogador com grandes problemas disciplinares já desde os tempos em que jogava no Marítimo, 'Vozes de burro não chegam ao céu'.

Já vimos que um insulto é algo que ofende, mas é ofendido quem o recebe e não quem o dá. Lá por nos chamarem de macaco não significa que somos um macaco. Marega como qualquer profissional na sua área, seja esta o futebol ou a engenharia aeroespacial, está sujeito à crítica, seja esta construtiva ou destrutiva.

Marega, porém, foi apelidado de corajoso e mais um par de botas por ter saído do campo. Corajoso?! A sério?! Colin Kaepernik também foi considerado corajoso por se AJOELHAR durante o hino nacional americano. É este o novo padrão de coragem do século XXI?!

Os cânticos e atitudes, racistas ou não, não deviam ter um ambiente legal tão nocivo. O bom de vivermos em democracia é o facto de existir vários pontos de vistas, sejam eles menos xenófobos ou mais xenófobos. Para todos os efeitos, o Mein Kampf e o Manifesto Comunista ainda continuam a ser vendidos. Estes livros, e os regimes provenientes dessas bases teóricas, colocavam entraves às opiniões contrárias. Em democracia essas barreiras não existem.

O problema de banir indivíduos que entoam estes cânticos, decisão que se existir deve pertencer única e exclusivamente aos clubes onde estes são proferidos, prende-se com a cancel culture, um problema recorrente nos padrões de liberdade de expressão que procura 'cancelar' tudo aquilo que não for conforme a um padrão utópico de discurso. Este perigo poderá dar resultado a tabelas afixadas à entrada de cada estádio a informar-nos das palavras que devemos ou não dizer dentro do mesmo. Se for prática comum começar a banir quem diz 'macaco', 'chimpanzé' ou 'preto', facilmente se bane quem chame 'ordinário', 'palhaço' ou 'cretino' a jogadores/treinadores.

Ir à procura de moralidade e bom senso num estádio desportivo é o mesmo que ir à procura de velas numa pastelaria.

Marega abandonou o seu local de trabalho e saiu porta fora. Imaginemos o absurdo que seria um trabalhador abandonar o seu posto de trabalho só porque o vendedor de bifanas o insultou durante a hora de almoço?! Logicamente, hoje existe o departamento de Recursos Humanos, que em muitas instâncias tem mais poder que o próprio Governo. Mas toda esta fragilidade em torno de algumas palavras, inoportunas e desnecessárias, é motivo para um capricho destes?!

Como se diz na gíria futebolística, a resposta dá-se em campo. O exemplo mais ilustrativo desta premissa é uma que me toca no coração por ter sido feita contra o meu clube, o Sport Lisboa e Benfica: Hulk, um dos melhores jogadores da Liga NOS, jogava no Estádio da Luz com o FCP e quando tocava na bola tinha um coro a replicar os sons de um macaco. Qual foi a sua resposta? Um petardo de 108 km/h do meio da rua para silenciar a maioria enervante. Um golo fantástico! Este jogo foi disputado à 21ª jornada da Liga ZON Sagres, referente à temporada 2011/2012 e Benfica e Porto entraram em campo com a mesma pontuação (49 pontos) e a vitória por 3-2 do FCP na Luz elevou os dragões à 1ª posição no campeonato. Dessa posição o FCP não saiu, tendo sido campeão nesse ano.

Esta é a resposta que se deve dar a qualquer tipo de insulto: excelência no trabalho. Hulk foi excelente tal como Marega tinha sido 10 minutos antes de ter saído de campo. Curiosamente, o FCP ganhou o jogo (2-1) em Guimarães e está agora a um ponto do SLB, o primeiro classificado do campeonato, fruto de um golo essencial de Marega. Disso é que Marega se devia orgulhar e não de ter saído do campo à procura do cálice da vitimização.

Devemos ser mais Hulk e menos Marega

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