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'Leaving Neverland' (1ª parte)- crítica ao documentário da HBO




Michael Jackson






Wade Robson, Dan Reed e James Safechuck





Leaving Neverland’: ** (2/5 estrelas) 

Michael Jackson foi sempre um homem um pouco estranho. A voz afeminada, o apalpar dos genitais em palco, a infância que nunca existiu, a fama, as fortunas etc. Mas o documentário da HBO: 'Leaving Neverland' demonstra-nos um lado escuro, estranho e muito mas mesmo muito desconfortável, de um homem que era, outrora, a pessoa mais famosa do Mundo.

Sabe-se perfeitamente que Michael Jackson foi um dos maiores cantores de sempre. O seu carisma e personalidade cativaram milhões de pessoas. Esses milhões dividem-se entre os apologistas, defensores acérrimos do cantor que o consideram a melhor criação de Deus (eu já fui um desses), e os opositores, que sempre suspeitaram da irregularidade comportamental de Michael Jackson. De facto, existia algo de muito errado dentro da cabeça do Rei do Pop. 

O documentário mostra-nos dois adultos (Wade Robson e James Safechuck), ambos na faixa etária dos 30 anos, e as suas respectivas infâncias, que apesar de diferentes traziam consigo um aroma de semelhança. Tal como muitos na década de 80, Wade e James eram ambos fãs de Michael Jackson mas a sua normalidade infantil iria mudar quando conhecessem o Rei do Pop.

Robson nasceu na Austrália e conheceu Jackson quando conseguiu vencer um concurso de dança. Já Safechuck nasceu nos E.U.A. e tronou-se amigo de MJ quando ambos fizeram parte de um anúncio.

A primeira parte do documentário é uma verdadeira monta-russa de emoções. A fase inicial que mostra Robson e Safechuck a viver os tenros tempos da infância onde a inocência e a ingenuidade reinavam, apenas permite que sejamos levados de novo para baixo, onde algo obscuro estava prestes a acontecer. A queda repentina é dada por um sentimento de uma inevitabilidade trágica e esquecemo-nos de Michael Jackson, o pai, o filho e a pessoa e só nos lembramos de Michael Jackson, o pedófilo e o predador sexual. 

A masturbação, os apalpões estão bem patentes e descritos ao detalhe, tornando o documentário de tal maneira desconfortável que parece que estamos a ver um mau filme e a única resposta é desligar a televisão. É demasiado violento mas não no sentido Tarantiniano da palavra e sim num sentido monstruoso e vil.

O director Dan Reed dá amplo tempo de antena às famílias de ambas as vítimas de modo a que estas contem a sua versão do que, alegadamente, aconteceu. As mães de Safechuck e Robson falam tanto como os seus filhos e quanto mais falam mais aparente se torna que Michael Jackson não foi o único culpado. Quer uma quer a outra não se importavam muito em deixar os respectivos filhos com um autêntico desconhecido. Afinal, era o Michael. Michael, o homem que fazia o moonwalk e que queria livrar o mundo de todos os males.

As famílias de Robson e Safechuck ficaram boquiabertos com a possibilidade de terem acesso direto a esta personagem quase irreal do mundo do show-biz. Estes figurantes completamente pasmados tornam-se essenciais para as ilegalidades sexuais cometidas e são centrais no desenrolar da história. Numa altura onde Michael Jackson era visto apenas como uma criança, as mães destes dois miúdos também se viram em dificuldades de tomar uma postura mais adulta e sendo apenas meras vítimas do poder que a televisão e a fama têm. 

As visitas às várias mansões de Michael Jackson tornaram-se algo comum e Michael era autorizado pelas mães a dormir no mesmo quarto e na mesma cama que Wade e James, sem qualquer tipo de supervisão. O próprio corredor que ligava ao quarto de Michael Jackson em Neverland, o famoso parque temático de MJ, estava ativado com sensores e assim que alguém estivesse próximo, esses sensores ativavam uma campainha dentro do quarto do cantor. Mas para a mãe de Safechuck, James e Michael: 'Faziam coisas de miúdos'. Cá está! 

A mãe de Robson, Joy, foi numa viagem até ao Grand Canyon com a sua filha e deixou Michael e Wade sozinhos em Neverland. Só a meio da viagem é que começou a entrar em pânico...

O detalhe extenso a que ambas as vítimas se sujeitam é triste e quase doentio. Torna-se realmente desconfortável ouvir os testemunhos de ambos. Sempre que há um episódio em que é relatado o abuso sexual ou a masturbação, o foco da câmara vai para a foto de uma das vítimas quando estes eram mais novos ou então é mostrado, à noite, os vários locais onde estes atos eram, alegadamente, cometidos. O hotel em Paris ou o 'paraíso' de Neverland, por exemplo.

Um dos momentos mais perturbadores do documentário é ver a facilidade com que Michael Jackson escolhia miúdos para o acompanharem. Quando Safechuck e Robson não eram suficientes, Macaulay Culkin e Brett Barnes eram os eleitos. Para além da traição aos olhos das duas crianças, as próprias mães, que de repente achavam que faziam parte do pacote, também se sentem atribuladas com estas mudanças de MJ.

Joy Robson, a mãe de Wade, é a típica dona de casa sem qualquer contacto com a realidade e devia ser a vencedora de Pior Mãe do Ano e sempre que abria a boca a minha vontade era de a esbofetear. Mas não era aquela chapada que me apeteceu dar quando vi Bruce Dern em 'The Cowboys'. Joy estava simplesmente pasmada com Michael Jackson, muito mais que o seu próprio filho. A certa altura é convidada por Michael Jackson a ficar, por uns tempos, nos Estados Unidos da América trazendo consigo Wade e a irmã. Joy deixa para trás o seu marido bipolar, Dennis (iria mais tarde suicidar-se por se sentir afastado da sua própria família) na Austrália e viaja para um sítio que não conhecia tão bem como achava, queixando-se de não ter as condições a que estava habituada: hotéis de cinco estrelas, limousines, jatos privados. Não percebeu o que se passara. Michael já teria outro novo brinquedo.

Em termos de produção o documentário é bastante apelativo; os ângulos da câmera são sólidos e a panorâmica geral é essencial quando não existe possibilidade de acesso aos diversos locais onde os actos sexuais foram cometidos e tanto Reed como a HBO estão de parabéns pois fizeram um trabalho notável.

Esta primeira parte do documentário é estranha e perturbadora mas o seu conteúdo torna-se aliciante apenas pelo valor cinematográfico e de produção. Como documentário em si é, simplesmente desconfortável e difícil de ver. Certamente não tenho planos de voltar a ver este filme e não tenho grandes expectativas para a segunda parte.

ENGLISH VERSION: https://martimsilvaexperience.blogspot.com/2019/03/hbos-leaving-neverland-part-i.html


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