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A Grande Muralha da Desilusão

O lema de Helenio Herrera, o histórico treinador do Inter de Milão.



Comecemos com algumas verdades incomodativas: O Benfica joga o triplo de há um mês, tem algum melhoramento individual e parece lançado para a reconquista nacional e prestígio internacional.

Parece um mar de rosas? Pois bem, não é.

O Benfica perdeu, na Grécia, contra o PAOK de Salónica (2-1) em jogo a contar para a 3ª pré-eliminatória da Liga dos Campeões. O Benfica ganhando este jogo só precisava de defrontar, em duas mãos, o Krasnodar (Rússia) para chegar à fase de grupos da competição de topo do futebol Mundial e arrecadar os milhões da Europa. (É interessante notar que, até no futebol, estamos dependentes dos dinheiros europeus).

O Benfica perde cerca de 38 milhões de euros com a saída prematura da Liga dos Campeões. Mas ainda há Liga Europa.

Pondo os milhões e a humilhação de parte, passemos aos factos.

Jorge Jesus já colocou uma equipa triste, medonha e medíocre a jogar como o Barcelona de 1994. Jesus está no seu habitat natural: com pressão e a gastar milhões, tentando levar esta equipa aos grandes sucessos de outrora. Porém, Jesus não joga. Jesus treina e treina bem. Mas não faz mais do que isso.

O jogo foi escrito a uma só caneta. O Benfica teve bola (muita), circulou-a bem, tapou contra ataques, foi agressivo na transição defensiva e irrepreensível nas bolas paradas. O planeamento do jogo foi perfeito. Nada podia ir contra a corrente.

Os grandes clubes de topo jogariam assim contra o PAOK. Não sei se seria mais eficaz jogar em bloco baixo e apostar no contra ataque contra uma equipa mais fraca que o Benfica em todos os momentos do jogo. O caminho para a vitória, a meu ver, foi o que Jesus implementou na terça-feira.

Mas o futebol não é uma ciência exacta. Futebol é jogado, treinado, administrado por pessoas, logo, os planos mais estratégicos e brilhantes podem sempre sofrer de imprevisibilidade humana.

Jan Vertonghen, numa situação onde a linha defensiva do Benfica fica exposta a um contra ataque, marca um auto-golo que não volta, de certeza, a marcar na vida. O plano individual não correspondeu à realidade concebida pelo plano estratégico de Jesus. 

Num outro contra ataque, Adel Taarabt e Carlos Vinícius ficaram a ver Dimitrios Giannoulis com os olhos e foram incapazes de o parar com uma falta. Este jogador acaba por percorrer o campo inteiro até passar a bola para o rebelde e ex-fora de lei do Benfica, Zivkovic. Este chutou e marcou. 2-0 a quinze minutos do fim.

Erros colectivos não houve. Jesus fez o que faz melhor. Deu as ferramentas à sua equipa para esta pescar. Jesus, no entanto, tem de se lembrar da cana com a qual trabalha.

Seferovic foi uma aberração de proporções históricas, mas não estou de todo surpreendido. Seferovic, o suíço elitista, dá-nos este espetáculo há já quatro anos. A sua inutilidade com bola, sem bola, de costas para a baliza, de cabeça, de pé surdo, de ataque à profundidade faz-me lembrar alguns membros de uma família de músicos: a família Jackson. 

Michael, Janet e Jermaine foram os membros desta família que tiverem mais sucesso comercial e qualitativo depois do fim da banda musical Jackson 5: Michael Jackson tornou-se no grande nome da música pop; Janet Jackson até criou um sub-género de R&B, o New Jack Swing, e conseguiu ser um nome importante na música pop; Jermaine Jackson, menos conhecido mas com algum talento. 

Depois destes três irmãos havia Marlon, Randy, Jackie e LaToya Jackson.

Seferovic é Marlon, Randy, Jackie e LaToya Jackson. O homem, simplesmente, não serve para nada a não ser ocupação de espaço.

Falhou três oportunidades claras de golo. Mais não digo.

Que não haja dúvida: o Benfica devia ter ganho este jogo. Com ou sem um cone suíço, o Benfica tinha obrigação de vencer. 

Há quem ainda tenha a lata de referir que estes reforços (só três foram expressamente pedidos por Jorge Jesus) são suficientes para o Benfica. Não concordo. Vieira retardou o investimento na equipa A durante 5 anos consecutivos por possuir a receita do elixir do sucesso futebolístico. Achava ele.

Agora, o Benfica tem de compensar essa prática desportiva ruinosa em menos de um mês para tentar reverter o ciclo negativo de resultados das épocas anteriores. Algo que não foi feito em 5 anos não pode ser, agora, feito em meses. Este plantel não chega para aquilo que o Benfica ambiciona acrescentar ao Museu Cosme Damião. André Almeida não é lateral em nenhum país do Mundo. Grimaldo defende tanto como Seferovic marca golos. Taarabt é incapaz de ser o 8 que Jesus tanto quer. Pizzi tem problemas de raça e concentração.

(Isto são os titulares! Imagine-se o banco).

O Benfica fez os possíveis para vencer este jogo. O futebol é isto, no entanto. Nem sempre ganha quem joga melhor e tem as melhores oportunidades. O Celtic, em 2012, venceu o Barcelona por 2-1 na Liga dos Campeões com 11% de posse de bola. O PSG só este ano é que chegou a uma final da Liga dos Campeões e já estourou milhares de milhões de euros em menos de dez anos. Há coisas inexplicáveis no futebol.

O Benfica não pode esperar, porém, que esta equipa resolva jogos sozinha porque não tem qualidade para tal. Não é sustentável que uma equipa esteja 5 anos a olhar para a parede e num mês se transforme no Manchester United de 1999.

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